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domingo, 2 de maio de 2010

Apelo do Senhor Presidente da República ao desenvolvimento das actividades culturais e criativas

A aluna finalista Conceição Oliveira sugere a publicação do excerto do Discurso do Presidente da República na A.R., no dia 25 de Abril, por considerar o seu conteúdo «de relevante importância para os EAC´s».
Agradecemos esta pertinente sugestão, bem como o envio do respectivo extracto, recolhido do site da Associação Comercial do Porto.

Excerto do discurso de Sua Excelência o Presidente da República:
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Senhor Presidente da Assembleia da República, Senhoras e Senhores Deputados
Graças à nossa riqueza histórica e cultural, ao talento de muitos dos nossos jovens, à capacidade de adaptação da nossa mão de obra e ao nosso clima privilegiado, temos ainda a possibilidade de desenvolver centros de excelência que se configurem como marcas distintivas à escala europeia.

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segunda-feira, 22 de junho de 2009

"O Centro Cultural Vila Flor: desenvolvimento e sustentação cultural. 20 anos de gestação"

Com este título, José Bastos, aluno do Curso de Estudos Artísticos e Culturais e Director do Centro Cultural Vila Flor (CCVF) de Guimarães, apresentou uma comunicação no Encontro realizado no Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz, dedicado ao tema da “Descentralização Cultural”. No seu discurso claro e reflectido, J. Bastos propõe-se delinear o enquadramento que permite ao CCVF apresentar-se hoje, precisamente, como “case study” da descentralização cultural. Para isso, traça um olhar retrospectivo, identificando as grandes marcas dos últimos 20 anos nas quais se torna manifesta a consolidação de uma prática cultural que vem conquistando paulatinamente a Cidade de Guimarães. Num segundo momento, José Bastos abre-nos a janela prospectiva daquilo que entende dever ser a actividade cultural estruturada e “sustentada” na Cidade, tendo como motor a oferta cultural do CCVF mas não se esgotando nela. Se o leitor pensa que é chegado o momento da invasão dos números e dos cálculos financeiros, então está muito enganado; J. Bastos está profundamente convencido que um projecto cultural se ganha ou se perde não em função da ditadura abstracta dos números, mas em função daquilo que designaríamos por “efeitos sistémicos da arte e da criatividade” que a experiência estética traz ao mundo de cada um dos espectadores. Fazer com que cada vez mais espectadores sintam necessidade desses efeitos, parece ser o (excelente) caminho delineado por J. Bastos. Estará aí o segredo deste “caso”? Um interessantíssimo depoimento a ler, a meditar, a comentar…
O Centro Cultural Vila Flor, desenvolvimento e sustentação cultural.
20 anos de gestação
O convite para falar do Centro Cultural Vila Flor como “case study” é uma enorme responsabilidade e obriga-me a recuar no tempo, considerando que aquilo que é hoje o Centro Cultural Vila Flor se alicerçou num trabalho persistente de cerca de 20 anos. A partir dos anos 90 a cultura, no sentido de prática cultural no campo das artes performativas, assumiu em Guimarães um papel que até então era praticamente invisível. Paulatinamente foram acontecendo actividades diversas, promovidas pela Câmara Municipal de Guimarães e por diversas associações do concelho. É no final da década de 80, princípio da década de 90 que têm início, de forma sustentada, actividades que perduram até hoje (Festivais Gil Vicente-1987; Encontros da Primavera-1990; Guimarães Jazz-1992). Estas iniciativas âncora permitiram o desenvolvimento de um conjunto de actividades de natureza artística, funcionando como suporte de credibilidade para uma programação tão regular e diversificada quanto possível. Os constrangimentos a esta actividade eram enormes mas a dificuldade transformou-se em oportunidade. A inexistência de um espaço de programação, com as condições técnicas mínimas, fez com que a cidade se transformasse no espaço de programação (O Paço dos Duques de Bragança, o Castelo de Guimarães, as praças do Centro Histórico, as inúmeras e belíssimas igrejas, os cantos de cada recanto, tornaram-se espaços cénicos). Esta realidade fez com que o ritmo de programação fosse aumentando; a realização no espaço público aumentou a participação dos públicos; a vontade de fazer venceu a dificuldade. Os espaços foram sendo adaptados na medida do possível, os meios técnicos foram sendo adquiridos, a equipa de trabalho foi-se apaixonando pelo projecto, o poder político foi acreditando cada vez mais na generosidade do mesmo, o público foi exigindo mais e a bola de neve foi crescendo. Com a recuperação do Centro Histórico, que levou a UNESCO a classificar Guimarães como Património Cultural da Humanidade, em 2001, tornou-se necessário e premente potenciar a vivência do centro histórico, evitando a sua utilização para actividades marginais. Assim nasceu o Verão Vale a Pena em Guimarães que consistia num ritmo frenético de programação e que rapidamente conquistou e alargou públicos. Conquistou desde logo o público residente que assistia “de camarote” aos espectáculos (em determinada altura do ano eram diários), conquistou o público que passou a frequentar o espaço numa óptica de ver o que se estava a passar e conquistou o público que estava ansioso por fruir música, teatro, dança, cinema. Como tudo na vida, este ciclo de frenesim teve que inverter tendências, o espaço estava definitivamente conquistado na fruição cívica e sem riscos de retorno, os “donos dos camarotes” começavam a acusar cansaço. Fruto de uma parceria da Câmara Municipal de Guimarães com a Universidade do Minho passou a existir, desde 1994, um espaço com condições razoáveis para a realização de programação artística. Finalmente existia em Guimarães um espaço para que permitia regularidade e coerência sem condicionalismos meteorológicos. Assim nasceu o Festival de Inverno (Janeiro a Março), primeira prática programática consistente e regular que permitiu iniciar hábitos de frequência sem interrupções temporais e saindo da trilogia Maio (Encontros da Primavera), Junho (Festivais Gil Vicente) e Novembro (Guimarães Jazz), isto para além da continuidade da programação em espaços não convencionais. Passou a existir uma prática miscelânica na programação. Passou a ser possível acolher projectos que até então não passavam do sonho. Passou a ser possível fidelizar públicos que passaram a deslocar-se aos espaços de apresentação, passou a ser possível cobrar entradas nos espectáculos. Passou a ser possível exigir mais de nós próprios. Tudo isto poderia ter acontecido de outra forma, poderiam ter sido feitas outras opções, mas a opção política foi a de definir a cultura como vector estratégico de desenvolvimento, crucial para o tão importante reforço da postura qualitativa e competitiva dos cidadãos e da cidade. A política cultural foi estruturalmente concebida, de forma a reforçar e manter uma oferta qualificada e que ao mesmo tempo fosse capaz de atrair, formar e satisfazer diferentes segmentos da procura. A autarquia teve como objectivo assegurar a preservação do património arquitectónico, cultural e histórico, infra-estruturas e equipamentos, assim como apoiar e incentivar as instituições e colectividades produtoras e promotoras de actividades na área da cultura. Desta forma pretendeu não só salvaguardar e divulgar as diferentes práticas culturais tradicionais, mas também dinamizar e potenciar o aparecimento de actividades e eventos com carácter inovador. No que concerne às práticas culturais da população o grande objectivo foi a formação e a atracção de diferentes segmentos de público, onde se incluía, por um lado, a população residente, destacando-se destes os mais jovens e, por outro, os turistas e visitantes. Atendendo à política traçada, os principais eixos estratégicos de intervenção tiveram por finalidade dar respostas aos desafios contemporâneos e às aspirações dos cidadãos, contribuindo para o desenvolvimento, valorização, afirmação e promoção da cidade. Diversificar a oferta cultural de acordo com as exigências de um público com novos padrões de consumo cultural, de forma a qualificar Guimarães como espaço de cultura e lazer de qualidade foi um objectivo claro da política cultural da cidade. A promoção da imagem do concelho tem passado por isso pela aposta forte em eventos culturais de vanguarda e de qualidade, de que o Guimarães Jazz é o exemplo mais consolidado no calendário cultural de Guimarães. A formação foi, desde muito cedo, uma presença assídua no panorama da programação cultural. Os Cursos Internacionais de Música, a Semana da Dança, a ODIT – Oficina Dramatúrgica de Interpretação Teatral que mais tarde deu origem ao Teatro Oficina, os ateliers, os colóquios, os debates, foram instituindo uma forma diferente de participar, foram fazendo com que o conceito de posse, de apropriação, estivesse cada vez mais presente. O projecto cultural de Guimarães não era de ninguém, era de muitos. A ODIT quando foi criada teve uma aceitação que ultrapassou em muito qualquer expectativa optimista (foram mais de 600 inscrições para fazer, no sentido de participar, teatro; inscrições de várias faixas etárias, sociais, económicas, culturais). A esta enorme procura de formação descomprometida, de formação pelo prazer de experimentar, pelo prazer de conhecer, foi feita a opção mais difícil. Aceitar todas as inscrições, promover a experiência e ganhar tempo para repensar o projecto. Aquilo que seria um projecto de teatro transformou-se num projecto que respondia aos desafios propostos, fez-se de tudo: teatro, dança, movimento, fotografia, cenografia, figurinos, desenho de som, desenho de luz, etc., etc.,etc. Todas estas dinâmicas levavam, de forma crescente, à constatação clara da inexistência de espaços para resposta a tudo. A Oficina foi crescendo, foi conquistando espaços no Palácio Vila Flor, de sala em sala ficou com praticamente todo o espaço, foi adaptando, inventando, recriando, dando novas funcionalidades, novas utilizações. Mas a dinâmica continuava sem ser correspondida com condições físicas. A Oficina adquiriu um armazém com cerca de 700m2 e, sem capacidade para realizar de imediato as obras de beneficiação, utilizou-o assim mesmo, inventando soluções. Só em 2004 as obras ficaram concluídas e o espaço passou a funcionar como local de residência do Teatro Oficina e como mais um local de apresentação de espectáculos. Nesta altura já se vislumbrava no horizonte o sonho de muitos anos – a construção do Centro Cultural Vila Flor – após ousada decisão do Presidente da Câmara que reagiu ao rasgar de contrato de financiamento, por parte do estado, com a decisão de avançar sozinho para um projecto de dimensão regional que 18 meses e 15 milhões de euros depois foi inaugurado ( a 17 de Setembro de 2005). Entretanto, em finais de 2003, a Câmara Municipal de Guimarães assina um protocolo de colaboração com a Oficina transferindo para esta a responsabilidade de programar os principais eventos culturais que até então assumia por si própria em parceria com diversas instituições mantendo, no entanto, os parceiros originais de cada projecto. Estes quase dois anos em que a Oficina assumiu a responsabilidade de programar, de acordo com a estratégia definida e com o objectivo claro de iniciar um trabalho que pudesse ser capitalizado por quem viesse a gerir o Centro Cultural Vila Flor. Estes dois anos foram determinantes para que a Câmara Municipal de Guimarães decidisse que seria a própria Oficina a capitalizar o trabalho desenvolvido e entregou-lhe o desafio de gerir o CCVF. O capital adquirido foi determinante para a Oficina ter a capacidade de aceitar o desafio, reestruturando-se e assumindo a abertura e funcionamento do espaço sem constrangimentos de maior e com eficácia, passe a imodéstia. O Centro Cultural Vila Flor passa a ser uma realidade pela força de um trabalho de muitos durante muitos anos, resulta de uma inevitabilidade latente, de uma asfixia existente e de uma falta de soluções para que o projecto pudesse crescer. A vontade, a exigência, a necessidade de crescer pressionavam demasiado a camisa de forças que aprisionava o projecto. O Ministério da Cultura apoiava financeiramente o primeiro ano de funcionamento, ou os dois primeiros, dos espaços que tivessem sido comparticipados pelo estado para a construção. Como o estado tinha rasgado o contrato de financiamento para a construção do CCVF também não pode aceder ao financiamento para o arranque do seu funcionamento. Felizmente a visão de quem decidiu construir o espaço é suficientemente ampla para perceber que um espaço com as características do CCVF e com a missão que a CMG lhe atribui, apenas pode funcionar com um financiamento claro e significativo. Foi assim que aconteceu e acontece. Com quase quatro anos de funcionamento ainda é prematuro fazer balanços que extravasem o estafado esgrimir de números, até porque, sendo importantes, não podem qualificar ou desqualificar, só por si, o alcance do trabalho desenvolvido. Como quase nada acontece por acaso, Guimarães terá um enorme desafio, que estou convicto transformará em oportunidade. Ser Capital Europeia da Cultura em 2012. Quem de direito na altura certa dirá o que vai ser a Capital Europeia da Cultura em 2012, quem de direito e na altura certa, ou seja todos nós, fará a avaliação do que foi. Tenho dado particular ênfase à programação cultural, às artes performativas, pela proximidade que tive e tenho neste âmbito, mas não é possível deixar de referir outras iniciativas de grande importância para a consolidação do projecto cultural de Guimarães. A Biblioteca Municipal Raul Brandão, o Arquivo Alfredo Pimenta, o Museu de Alberto Sampaio, a Sociedade Martins Sarmento, as diversas Associações Culturais, todos tiveram um importante papel na construção daquilo que é hoje um projecto cultural abrangente e assumido por muitos como crucial para o desenvolvimento próximo e longínquo. Deixando a história de lado, passaria a uma reflexão sobre a necessária sustentação de um projecto cultural. Falar sobre sustentação cultural abre um conjunto de caminhos imensamente sinuosos e plenos de encruzilhadas. Divagar sobre a cultura é um exercício que procurarei fazer, sem pretensiosismo nem certezas inabaláveis, mas com convicções que a realidade quotidiana se encarrega de questionar repetidamente. Desde logo, surge o questionamento basilar acerca do que é a cultura; acerca do que se fala quando se fala de cultura; acerca da comunicação que se estabelece entre emissor e receptor quando a palavra soa. Cultura significa exactamente o quê? Aquilo que está imanente nos conceitos de quem diz? Ou aquilo que significa em função dos códigos de quem ouve? No meio da encruzilhada avanço em várias direcções e volto sempre atrás em busca do caminho inexistente da totalidade. Na perspectiva humanística da definição de cultura, e na utopia da universalidade da erudição globalizada, a cultura aparece como uma característica inerente a cada indivíduo e perfeitamente diferenciada de outro. Isto porque a cultura, neste sentido, resulta de um vasto conjunto de conhecimentos assimilados, independentemente da sua natureza temática, permitindo afirmar que dois indivíduos de elevada erudição pouco têm em comum no que concerne à sua cultura. Nesta medida, apesar de reducionista, a cultura não poderá nunca ser uma característica intrínseca de um povo, de uma região ou de uma vivência. No limite haveria tantas culturas como indivíduos e a palavra cultura, enquanto elemento de significação objectiva deixaria de ter sentido. Cada vez mais aquilo que diferencia e que assume um registo de marca indelével de uma cultura terá tendência para se esbater em consequência da normalização a que todos são conduzidos na busca de uma aceitação individual e colectiva; na busca dos modelos que as culturas mais fortes impõem como referenciais e indiscutíveis e funcionando como castradores da manutenção das culturas e castradores do aparecimento de novas culturas. Em suma poderá correr-se o risco da existência globalizada de uma aculturação, imposta pelas culturas predominantes que apagam as características intrínsecas doutras culturas que consideram fora dos cânones que estabeleceram para si próprios. Posto isto, questiono-me acerca do que será feito da cultura como conjunto de características que permitam agrupar um conjunto alargado de indivíduos em função do que de comum possuem como prática vivencial em resultado dos hábitos e práticas adquiridas ao longo dos tempos. Porventura passaremos a ter uma cultura universalista e sem características suficientemente fortes e marcantes para que se possam diferenciar. Ultrapassado este exercício especulativo, e considerando que a sustentação cultural de um projecto cultural se mede pela sua capacidade em contribuir para o crescimento do indivíduo nas várias dimensões da sua vivência, urge falar dos princípios que darão sustentabilidade a um qualquer projecto cultural. A primeira abordagem, sem conseguir abandonar por completo a abordagem especulativa, situa-se ao nível da utopia no que concerne ao âmbito dos fruidores das propostas que uma programação artística disponibiliza. Citando de cor a directora do Teatro Municipal de Bragança, Helena Genésio, quando questionada sobre o pretenso elitismo da sua programação, diria que se elitismo significa qualidade, desejo elitismo para todos. Perseguindo o desiderato desta contradição, procura-se a sustentação cultural através do objectivo traçado para prossecução de uma missão. No Centro Cultural Vila Flor, local onde desempenho funções, procuramos a sustentação cultural pela presença da convicção do trabalho desenvolvido no campo da programação e da criação artística. Procurar sustentabilidade significa disponibilizar propostas artísticas de forma regular e com abrangência de área e género. Sustentabilidade significa que o programador está munido de convicções e de conhecimentos para executar a tarefa em apreço, significa que o programador é um mediador entre o objecto artístico e o público, significa que o programador está ao serviço da mediação e não se serve dela para outros fins que não o de tentar utilizar os recursos disponíveis para aproximar e colocar em diálogo o sujeito (público) e o objecto. A adequação da programação, em função do conhecimento e interpretação do território, potencia a sustentação do projecto, consolidando relações e favorecendo a apropriação. Sustentação programática é dar primazia ao objecto artístico, em detrimento de lógicas meramente economicistas ou numéricas. Sustentação é propiciar uma proximidade relacional entre o público e a arte. Sustentação é formação; é criação, é diálogo, é divergência; é convergência; é ter opinião; é fazer opinião; é ouvir; é não hesitar; é avançar humildemente; é recuar orgulhosamente; é gerir tensões; é ousar. Sustentação é elevação. Sustentação é tudo isto e muito mais, desde que utilizado como veículo e como forma de veicular a aproximação do público às artes e à cultura no seu conceito mais humanista – ao serviço do homem. Sustentação é, ainda, dar condições para que todos possam ter acesso a um exercício de cidadania pleno e é neste pressuposto de exercício de cidadania que é fundamental o papel desempenhado pelos serviços educativos como forma de combater a castração criativa que o modelo de ensino provoca nos jovens. A formatação do ensino nas escolas coarcta a notável capacidade criativa das crianças que conseguem, simultaneamente, viver num mundo real sem deixarem de ter a sua existência vivencial num mundo imaginário, sem formatações prévias e com uma enorme liberdade de pensamento criativo, porque não sujeito às normalizações que os adultos ainda não conseguiram, vitoriosamente, introduzir. A necessidade da comparação com os outros, a necessidade da perfeição, a definição de um padrão apresentado como normal, leva aquilo que a sociologia define como institucionalização resultante da habituação, resultante da socialização primária. Assim, desde muito cedo, a escola e as famílias procuram institucionalizar as crianças, certos que essa é a melhor forma de garantir o seu desenvolvimento mais adequado e esquecendo-se que, dessa forma, estão a restringir o crescimento de cada um ao seu ritmo e de acordo com liberdade criativa que existe, em potência, nas crianças. Os serviços educativos devem perseguir o objectivo de institucionalizar o espaço para a criatividade, o espaço para o crescimento diferenciado. As artes são um contributo fundamental para tal. Quase para terminar cito Jean Piaget: “ O essencial é que, para que uma criança entenda, deve construir ela mesma, deve reinventar. Cada vez que ensinamos algo a uma criança estamos a impedir que ela descubra por si mesma. Por outro lado, aquilo que permitimos que descubra por si mesma, permanecerá com ela”(Piaget, 1998). Cito também Carlos Drummond de Andrade, que num artigo publicado no Jornal do Brasil em 1974, já abordava a questão da criatividade como elemento essencial para o desenvolvimento equilibrado:
A Educação do ser poético
“Por que motivo as crianças, de modo geral, são poetas e, com o tempo, deixam de sê-lo? Será a poesia um estado de infância relacionada com a necessidade de jogo, a ausência de conhecimento livresco, a despreocupação com os mandamentos práticos de viver – estado de pureza da mente, em suma?
Acho que é um pouco de tudo isso, se ela encontra expressão cândida na meninice, pode expandir-se pelo tempo afora, conciliada com a experiência, o senso crítico, a consciência estética dos que compõem ou absorvem poesia.
Mas, se o adulto, na maioria dos casos, perde essa comunhão com a poesia, não estará na escola, mais do que em qualquer outra instituição social, o elemento corrosivo do instinto poético da infância, que vai fenecendo, à proporção que o estudo sistemático se desenvolve, ate desaparecer no homem feito e preparado supostamente para a vida?
Receio que sim. A escola enche o menino de matemática, de geografia, de linguagem, sem, via de regra, fazê-lo através da poesia da matemática, da geografia, da linguagem. A escola não repara em seu ser poético, não o atende em sua capacidade de viver poeticamente o conhecimento e o mundo.
Sei que se consome poesia nas salas de aula, que se decoram versos e se estimulam pequenas declamadoras, mas será isso cultivar o núcleo poético da pessoa humana?
Oh, afastem, por favor, a suspeita de que estou acalentando a intenção criminosa de formar milhões de poetinhas nos bancos da escola maternal e do curso primário. Não pretendo nada disto, e acho mesmo que o uso da escrita poética na idade adulta costuma degenerar em abuso que nada tem a ver com a poesia. Fazem-se demasiados versos vazios daquela centelha que distingue uma linha de poesia, de uma linha de prosa, ambas preenchidas com palavras da mesma língua, da mesma época, do mesmo grupo cultural, mas tão diferentes.
Se há inflação de poetas significantes, faltam amadores de poesia – e amar a poesia é forma de praticá-la, recriando-a. O que eu pediria à escola, se não me faltassem luzes pedagógicas, era considerar a poesia como primeira visão directa das coisas e, depois, como veículo de informação prática e teórica, preservando em cada aluno o fundo mágico, lúdico, intuitivo e criativo, que se identifica basicamente com a sensibilidade poética.
Não seria talvez despropositado cuidar de uma extensão poética das escolinhas de arte, esta ideia maravilhosa que Augusto Rodrigues tirou de sua formação humana de artista para a realidade brasileira. Longe de ser uma fábrica alarmante de versejadores infantis, essa extensão, curso ou actividade autónoma, ou que nome lhe coubesse, daria à criança condições de expressar sua maneira de ver e curtir a relação poética entre o ser e as coisas. Projecto de educação para a poesia (fala-se hoje em educação artística no ensino médio, quando o mais razoável seria dizer educação pela arte). A vocação poética teria aí uma largada franca, as experiências criativas gozariam de clima favorável sem que tal importasse na obrigação de alcançar resultados concretos mensuráveis em nível escolar. Sei de casos em que um engenheiro, por exemplo, aos 30, 40 anos, descobre a existência da poesia... Não poderia tê-la descoberto mais cedo, encontrando-a em si mesmo, quando ela se manifestava em brinquedos, improvisações aparentemente absurdas, rabiscos, achados verbais, exclamações, gestos gratuitos?
Alguma coisa que se bolasse nesse sentido, no campo da Educação, valeria como correctivo prévio da aridez com que se costuma transcrever os destinos profissionais, murados na especialização, na ignorância do prazer estético, na tristeza de encarar a vida como dever pontilhado de tédio. E a arte, como a educação e tudo o mais, que fim mais alto pode ter em mira senão este, de contribuir para a educação do ser humano à vida, o que, numa palavra, se chama felicidade?”(Andrade, 1974)
Esta questão mantém hoje uma grande actualidade, atendendo ao facto da escola continuar a não responder a uma necessidade primordial das crianças e que os Teatros, Centros Culturais, Fundações e outras estruturas ligadas às artes estão, felizmente, cada vez mais a assegurar.
Importa referir que toda a sustentação, de qualquer projecto cultural, apenas pode acontecer se cimentada numa visão política e estratégica de quem tem o poder decisório. Só um poder sustentadamente estratégico e convictamente esclarecido consegue dar condições para que se cumpra o serviço público, sem interferências casuísticas a propósito deste ou daquele interesse, com uma cumplicidade partilhada no que concerne a duas questões essenciais: o conhecimento do ponto de partida e a partilha do objectivo de chegada. Muito Obrigado.
Bibliografia Andrade, C. D. (1974). A educação do ser poético. Jornal do Brasil . Piaget, J. (1998). A Psicologia da Criança. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
José Bastos / Figueira da Foz, 1 de Junho de 2009

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terça-feira, 19 de maio de 2009

Regeneração urbana de liderança cultural

Texto de José Bastos, aluno do Curso de Estudos Artísticos e Culturais, publicado na revista Arquitectura, 21, nº 3/Abril de 2009
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quarta-feira, 18 de junho de 2008

Rui Madeira, novo docente de EAC’s: «gostaria de ver instituída uma verdadeira política de Ensino»

“O Corpo e a Vontade – Atelier de artes teatrais” é a disciplina que o Actor Rui Madeira leccionará no Curso de Estudos Artísticos e Culturais no próximo ano lectivo (1º semestre). Trata-se de uma Oficina sobre “ferramentas" para a animação, criação artística e comunicação, a partir do Teatro. Encenador e Actor Profissional, Rui Madeira é o Director artístico da Companhia de Teatro de Braga e Administrador-Delegado do Teatro Circo de Braga desde 1988. Trabalhando regularmente em cinema e televisão, é sobretudo no teatro que mais se tem notabilizado a sua qualidade artística. Com larga experiência lectiva nas áreas das Práticas Teatrais, Rui Madeira é um nome consultado nas questões relacionadas com a situação do teatro e uma voz bem audível na apreciação da política cultural nacional e internacional. De um troço de conversa, eis um breve registo das opções culturais e dos gostos estéticos que alimentam a sua reflexão e a sua actividade no campo artístico e cultural. Da programação televisiva e radiofónica apenas lhe interessa a informação. As suas preferências vão para o cinema, destacando “Os Malditos” de Visconti, “O Criado”, com Dirk Bogarde (um dos seus actores preferidos), o “Sacrifício” de Tarkowski, o “Sol Enganador” de Mikhalkov… Na música revela um gosto bastante eclético, pontificando a França de J. Brel, Aznavour, Ferré, Montand, Regiani; a música brasileira e sul-americana, de Chabela Vargas e La Lupe. O bom fado é uma das suas predilecções - Cristina Branco, Aldina Duarte, Amália sempre, Mariza, Carlos do Carmo, bem como os mais antigos Marceneiro, Manuel de Almeida, António dos Santos. Quanto à música portuguesa actual destaca “os seus amigos” Jorge Palma, Abrunhosa, Xutos, Reininho, Adelaide Ferreira. Do jazz destaca Carlos Barretto e Bernardo Sassetti. No domínio da literatura recusa-se a destacar o inevitável “livro da sua vida”, antes prefere a pluralidade: «há livros lidos em circunstâncias e idades diferentes»: “Recordações da Casa dos Mortos” de Dostoiévski, “A Montanha Mágica” de Thomas Mann, Thomas Bernhard - sobretudo “Antigos Mestres”, bem como “Jardim de Cimento” de Ian McEwan… Dos “papéis” que representou, ao longo de mais de 30 anos de carreira no Teatro, destaca o de Valério em “Leôncio e Lena” de Buchner, Jimmy em “O Tempo e a Ira” de Osborne, um outro em “Polaróides Explícitas”, como os que mais o preencheram. Mas não no sentido de se ter sido invadido por eles: «As personagens – afirma - não se me colam à pele. É um processo e uma metodologia de criação. Não faço parte dos actores que “encarnam personagens”». É sempre no registo da interacção com a alteridade que o seu ser-actor se constrói: «Na criação de um personagem procuro a respiração e a partir daí o ritmo, a fala, o corpo, o olhar, enfim os sentidos e o confronto com os outros personagens. Grande parte da criação de um personagem por um actor descobre-se naqueles com quem contracena.» E como vive este “actor cultural” o ambiente cultural bracarense? «Sinto que Braga tem de trazer mais para a discussão pública a cultura como tema e processo. Sinto que Braga precisa de crescer rapidamente até aos 200 mil habitantes para entrar em parâmetros culturais europeus. Sinto que o problema de Braga é um problema de País. Braga tem razões para ser mais culta.» Quanto às principais mudanças que Rui Madeira gostaria de ver implementadas, na área da cultura em Portugal, sublinha a urgência de uma definição de objectivos estratégicos nacionais para um arco temporal de 10 anos, de políticas integradas em ordem à estruturação do país em domínios como a criação e a circulação artísticas. Mas, prioritariamente, «gostaria de ver instituída, por uma vez no meu País, uma verdadeira política de Ensino. Política essa que valorizasse e instituísse A ideia de Aprender enquanto um Acto de Cidadania, a ideia de Escola como O Lugar onde apetece estar e a ideia de Trabalho como Acto de Prazer». Sublimes expectativas com um pano de fundo de salutar Utopia.

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quarta-feira, 2 de abril de 2008

Curso de Estudos Artísticos e Culturais participou em debates no Teatro Circo de Braga

No âmbito do IIº Festival das Companhias de Teatro Descentralizadas e do Dia Mundial do Teatro, que decorreram em Braga, de 25 a 30 de Março, a Companhia de Teatro de Braga (CTB) organizou um ciclo de debates em redor das questões da actividade artística e cultural, tendo neles participado diversas entidades da área das artes, da cultura, das autarquias e do ensino superior, entre as quais se contou o Curso de EAC’s da FacFil. A actualidade e pertinência das questões levantadas nesses debates, a vivacidade das discussões, o interesse que despertou nos intervenientes constituem o melhor testemunho do acerto das opções dos seus promotores. Parabéns à CTB e especialmente ao seu director Rui Madeira, a quem agradecemos também o honroso convite. Da nossa parte, foi com muita expectativa que propusemos a continuidade da reflexão que ali aconteceu, certamente mais orientada para a problematização da especificidade da situação artística e cultural de Braga e da sua região envolvente. A sintonia entre as diversas entidades presentes quanto a um núcleo de preocupações comuns, bem como a consciência de naturais divergências, as pistas de trabalho ali surgidas, e sobretudo o sentimento de que podemos/devemos fazer algo mais pela promoção e enriquecimento cultural da nossa Cidade e de toda a região, actuando de um modo mais concertado e estruturado, levou-nos a formular a proposta da constituição de um grupo de trabalho que integre as diversas instituições e entidades que intervêm no campo da arte e da cultura, um grupo de missão com o objectivo de agenciar sinergias, reflectir, coordenar e implementar uma estratégia de afirmação cultural da Cidade e da Região, num contexto onde, cada vez mais, o global se permuta com o local e com o regional. Tal como afirmámos, não nos parece que seja suficiente a implementação de parcerias “bilaterais” entre algumas das instituições e entidades que estão no terreno; isso já se vai fazendo com resultados claramente positivos. Mas é preciso passar a um patamar mais amplo do ponto de vista da representatividade e da inclusão, e mais exigente do ponto de vista funcional e de atribuição de competências, para que um efectivo trabalho em rede na área da arte e cultura tome forma e conteúdo. O Curso de EAC’s da Faculdade de Filosofia participou neste evento, sobretudo em duas sessões. A primeira delas foi dedicada às “Estratégias de financiamento, promoção e circulação dos bens culturais”, cuja introdução e lançamento do tema esteve a cargo da Profª. Ana Sofia Thenaisie Coelho, actual docente da disciplina de “Introdução às Técnicas da Conservação das Artes”. A outra sessão, dedicada ao tema “A contribuição da Universidade no processo de criação e fruição cultural” contou com a intervenção do docente da Faculdade Carlos Morais. Sendo ambas as questões de grande actualidade e particularmente problemáticas, complexas, e passíveis de abordagem desde múltiplos ângulos – só para referir alguns: política da cultura, desenvolvimento económico, opções orçamentais, paradigma cultural, estatuto e função da arte, formação de públicos, conceito de gosto e educação, projecto pedagógico, concepção de universidade – gostaríamos de convidar os nossos leitores a pronunciarem-se sobre elas. Para facilitar o diálogo e o comentário codificamo-las em duas perguntas: 1 - Quem deve financiar os projectos artísticos e culturais? O Estado? Os privados? Os próprios autores? 2 - O que pode e deve a Faculdade de Filosofia fazer para fomentar a criação e fruição cultural? Está aberto o debate. Formule as suas opiniões.

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sexta-feira, 21 de março de 2008

Parcerias público-privado na cultura?!

Pelo menos teve a virtude da sinceridade: na sua primeira intervenção, no passado dia 19 de Março de 2008, no Parlamento, o recentemente empossado Ministro da Cultura – Dr. José António Pinto Ribeiro - assumiu claramente a escassez da dotação orçamental e financeira do seu ministério para a área da cultura. O apelo feito às "parcerias com o sector privado" até poderia ser entendido como uma inusitada adesão da assim considerada "esquerda moderna" a uma política económica de fundo mais liberal para a gestão da cultura. Mas não, pois é apenas motivado pela magreza escanzelada dos draconianos cortes e poupanças orçamentais de um Estado que relega, de vez, a dinamização do sector cultural para as calendas. Já na sua tomada de posse, a 30 de Janeiro, tinha proferido a programática frase que, portuguesmente falando, significa não desistir da omeleta, mesmo que/sobretudo quando os ovos são – na versão da tecnologia avançada – cada vez mais virtuais: "É preciso fazer mais e melhor com menos". Das notícias vindas a lume, quanto à situação dos museus, do património, estatuto do artista, ensino artístico, mecenato, apoio às artes, de tudo isso resulta pouco mais do que um diagnóstico que nos provoca uma sensação de bloqueio e incapacidade de manobra. Eis a crise e o controlo do tenebroso deficit a desabar sobre a cultura, tão retoricamente propalada quando convém! Registamos o tom prudente e avisado de algumas das declarações e intenções do Ministro: lutar contra a lógica de esbanjamento; estudar da hipótese de transferir a gestão dos museus para as autarquias; a sua desconfiança face às situações de subsídio-dependência, admitindo ao mesmo tempo a necessidade do Estado estimular e apoiar a actividade artística e cultural; a necessidade de usar a imaginação e a capacidade de iniciativa na aplicação do mecenato. Tudo isto, vindo de alguém que conhece bem o sector privado, só pode significar que está decidido a colocar (ainda mais) travões na despesa pública com a área da cultura. Reiteramos o nosso ponto de vista: todas estas medidas poderiam ser salutares se integradas numa política de raiz para a cultura, se tivesse lançado a tempo e horas os instrumentos de envolvimento do sector privado, empresarial, autárquico, associativo de modo a garantir uma resposta estratégica e sustentável aos desafios e às exigências que o campo da actividade artística e cultural comporta. Não tendo sido preparados esses instrumentos, não se vê como ou quem possa compensar o paulatino processo de desorçamentação e de desresponsabilização do Estado perante o sector cultural. As sérias dificuldades em que se encontram cerca de três dezenas de museus, bem como a meia centena de monumentos em risco (referidos pelo próprio Ministro) constituem uma ponta da realidade cultural que sustenta o que acabamos de sublinhar.

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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Impulsos não são estratégia cultural

Quando falamos de nós e das nossas coisas tendemos a ser grandes. Não raras vezes, perdemos o sentido da realidade e falamos como de um sonho. O exemplo mais vulgar que encontro para mostrar esta ideia é a relação dos portugueses com a sua selecção de futebol. Muitas vezes tem sido apregoada por adeptos, comentadores, jornalistas, se não a melhor, pelo menos, uma das melhores selecções do mundo. A selecção portuguesa já tem feito história, na exacta medida de um pequeno país, mas na verdade nunca ganhou nada que lhe possa dar um estatuto de verdadeiramente grande. Sobretudo grande com perseverança e não só de pequenos impulsos. No campo da cultura portuguesa acontece algo semelhante. Empolgamos em demasia o que é nosso e tomamos os pequenos impulsos como grandes coisas. Sejam esses impulsos um monumento perdido no meio do território, um escritor que conseguiu notoriedade internacional, um músico que toca em palcos reconhecidos, um pintor que expõe em Nova Iorque… No entanto, quando saímos de portas e ganhamos referências para comparação, verificamos que o nosso não passa mesmo de impulso. Tomarmos, constantemente, como grande o que são impulsos momentâneos, não ajuda a levarmos a sério o caminho que o país deve percorrer para começar o que, na verdade, nunca foi feito pela cultura em Portugal. É difícil encontrar em Portugal uma estratégia cultural para o país. Uma estratégia que se torne visível como a dos aglomerados de construções nas cidades. Uma estratégia capaz de articular as diferentes dimensões do ser humano e que seja para este o que as auto-estradas foram para as regiões do país. Acreditem, nem é preciso mais dinheiro, mas mais articulação, coordenação e aproveitamento dos recursos existentes. Permitam-me, aqui, um último parágrafo para sublinhar o muito que as Faculdades de Humanidades poderão desenvolver no campo da cultura e, concretamente, no trabalho de articulação e coordenação. Penso que se tem perdido excessivo tempo a apregoar a falta de alunos nestas áreas, como se dependesse da existência de alunos a necessidade destas Faculdades para um país. A necessidade das Faculdades de Humanidades justifica-se plenamente pelo tipo de revolução que se espera sempre delas: a revolução do próprio espírito humano. Para isso é preciso o atrevimento de se misturarem mais com o meio envolvente. No meu entender, um bom caminho para isso é levarem as preocupações com o deficit cultural do país a sério e tomarem-no como estratégia perseverante. Creio que passará por aqui o caminho para deixarmos cada vez mais de ser apenas impulsos, no que respeita à estratégia da política de cultura em Portugal. Texto de José António Alves, Mestre em Filosofia.

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